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A tragédia do Titan(ic)

por Hugo Gomes, em 23.06.23

Titan-Titanic.jpg

Boa tarde! Morreram… Todos!“, é com tal pragmatismo que abre José Rodrigues do Santos o telejornal da RTP, dando as mais recentes e derradeiras atualizações do caso do submersível (mais cápsula que qualquer outra ‘coisa’), Titan, perdido numa visita aos destroços do Titanic. É o mediatismo do caso, o circo montado que serve de afronta à nossa própria moral. Cinco indivíduos, desgraçados no leito do Oceano Atlântico, milionários (devemos dizer), ostentando os seus privilégios ao conseguir pagar fortunas para visitar o tal trágico paquete, ou o que resta dele. Como Joseph Conrad escreveu, dias após da real tragédia de 1912, apurando causas e acima de tudo lições com a húbris demonstrada no evento, Titanic, esse símbolo da divindade humana em transgredir as suas próprias fragilidades, mito equivalente a Ícaro. Passados 111 anos, com James Cameron a sair das “sombras” avatarianas com uma lamentação, a repetição da História, de que ninguém quis prestar atenção aos avisos, ninguém quis saber, novamente os ricos armaram-se em indestrutíveis e pagaram o preço. Paz à sua alma, mas não é deles que devemos prestar a nossa atenção. A comunicação social ditou as prioridades, novamente ostentando a importância da classe, dias antes deste destino fatídico, um lotado barco de refugiados naufraga aqui ao lado, no Mediterrâneo, a Guarda Costeira grega cruzou os braços, não interessa, são cerca de 800 vidas (estima-se assim), mas não interessa, só queremos saber de ricos depositados no fundo. Glauber Rocha pronunciou que a Guerra entre as classes é real, aqui notamos essa diferença, e a traição do jornalismo, esse suposto Quarto Poder, que preferiu ficar ao lado daqueles que arriscam em capitalizar a tragédia dos outros (aquelas “ruínas” submersas são um dos ícones das tragédias do século XX, ao lado de Auschwitz), do que viabilizar os «não-privilegiados», os erradicados do seu país, iludidos com as promessas de um Velho Mundo acolhedor e esperançoso, “sepultados” nesse extenso cemitério chamado de Mediterraneo.

Não, não se trata aqui da hipócrita whataboutism com utilização dos refugiados, mas está na altura de aprendemos com isto algumas lições de vida, estabelecer as nossas prioridades (e a comunicação também).

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publicado às 15:33


9 comentários

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De Vagueando a 24.06.2023 às 08:48

A grande lição que devemos tirarr daqui é que não aprendemos nada com o passado. A outra, não sei se grande se pequena lição que devemos tirar sobre o mediatismo dado à morte de 5 milionários em contraposição com a morte de 800 migrantes é que o povo, aquele que supostamente vota, e fala mal dos políticos todos (eles são todos iguais, querem é tacho), baba-se por notícias sobre ricos e está-se maribando para os desgraçados.
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De Anónimo a 24.06.2023 às 12:56

.
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De Anónimo a 24.06.2023 às 12:57

O problemas das prioridades invertidas existe nos media mas também nos blogues. A comunicação social ditou as prioridades, mas nos blogues também é assim. Há vários dias que se fala no assunto nos media e com comentadores

Há um problema grave na sociedade. O problema é sempre só os outros, nunca também nós. Nós somos perfeitos! Nós sabemos tudo e temos a opinião correta sobre tudo!

Tem razão: está na altura de estabelecer as nossas prioridades (e a comunicação também). Mas parece que os sua prioridade tal como a de muitos outros, é o seu blogue e não certos assuntos. Se a sua prioridade fosse certos assuntos, saía do seu blogue e ia ler o que os outros escrevem.

A hipocrisia existe pois alguns só se preocupam com certos assuntos se esses assuntos estiverem no blogue deles porque isso é do interesse deles.
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De André a 26.06.2023 às 09:12

Alguém que dê um pouco de atenção a esta personagem.
É desesperante verificar o estado solitário em que se encontra.
Alguém que ou ouça, pois ele quer desabafar, quer mostrar a sua opinião ao mundo, mas acaba por ficar fechado no seu problema psicológico, não emitindo opinião nenhuma sobre qualquer assunto, apenas um enorme complexo com a opinião dos outros.
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De João Gil a 24.06.2023 às 14:39

A morte dos 5 mergulhadores a bordo do submersivel é um evento único, exclusivo e que não se repete. Por isso mesmo concita a atenção e a empatia generalizadas. Como outros de iguais contornos, fossem ricos, pobres ou remediados os protagonistas das tragédias que que de vez em quando sucedem pelo mundo. Como a dos mineiros do Chile, ou a dos miúdos na caverna da Tailândia, ou os marinheiros russos do Kursk, ou mais recentemente do submarino argentino. Ignorar as similitudes da reação pública e da consternação genuína da opinião pública dá jeito e máscara a hipocrisia costumeira nestas coisas. Simplesmente porque ser rico e morrer num submarino não é crime nem luta de classes coisa nenhuma. É uma tragédia humana. Desumano é não sentir empatia naquela situação extrema e de desfecho desconhecido durante dias. A questão dos migrantes que são embarcados aos magotes por redes criminosas patrocinadas por estados criminosos em embarcações destinadas a afundar-se e a matar os pagantes da viagem não é um evento único. Pelo contrário, é uma constante diária de anos e anos. Deixou de ser notícia. Passou a ser uma rotina. Por isso mesmo não concita atenção nenhuma especial. Questionável? Sem dúvida. É apenas psicologia barata mas real. Os que se manifestam aqui no conforto das suas casas e dos seus computadores e rasgam as vestes pelos milhares de mortos no Mediterrâneo acusando gratuitamente os povos e governos dos países europeus de destino destas pessoas ainda não se lembraram de dar corda aos sapatos e ir acampar, manifestar-se e indignar -se para os países de origem da emigração clandestina e controlada por gangues criminosos que exploram estes desgraçados. A começar pelos jornalistas, claro. Porque será? A imprensa dos 15 milhões de € não existe só em Portugal. Está por todo lado, capturada pelas suas próprias fraquezas morais e recebimentos de favor. É uma infâmia? Pois é. Mas não é na Europa que alguma vez terá solução. Como não é nos EUA que se resolve a corrupção de estado que grassa nos países corruptos da América Central e do Sul que mandam milhões para os EUA para não terem o encargo de lhes proporcionar uma vida digna e justa nos seus países. Dá trabalho governar pelo povo, para o povo e pelo povo. É preciso algum cuidado a reconhecer os criminosos numa linha de identificação. Apontar o dedo é fácil. Qualquer um aponta. É que também há a classe dos justos e a dos bandidos. Não é só a dos ricos e dos pobres.
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De Anónimo a 26.06.2023 às 06:40

Concordo com você integralmente.
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De s o s a 24.06.2023 às 20:25

Destaco esta parte, o fecho ,
"mas está na altura de aprendemos com isto algumas lições de vida, estabelecer as nossas prioridades "

para confessar que nao aprendi liçao de vida e nao vejo que as prioridades tenham-se alterado.

Por mais e toda a razao que o autor possua !
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De Corvo a 25.06.2023 às 10:29

De acordo consigo. Nem distingo prioridades alteradas nem aprendi lição de vida nenhuma.
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De Anónimo a 25.06.2023 às 19:03

Os ricos ao leme é um desastre.

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