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“Boa tarde! Morreram… Todos!“, é com tal pragmatismo que abre José Rodrigues do Santos o telejornal da RTP, dando as mais recentes e derradeiras atualizações do caso do submersível (mais cápsula que qualquer outra ‘coisa’), Titan, perdido numa visita aos destroços do Titanic. É o mediatismo do caso, o circo montado que serve de afronta à nossa própria moral. Cinco indivíduos, desgraçados no leito do Oceano Atlântico, milionários (devemos dizer), ostentando os seus privilégios ao conseguir pagar fortunas para visitar o tal trágico paquete, ou o que resta dele. Como Joseph Conrad escreveu, dias após da real tragédia de 1912, apurando causas e acima de tudo lições com a húbris demonstrada no evento, Titanic, esse símbolo da divindade humana em transgredir as suas próprias fragilidades, mito equivalente a Ícaro. Passados 111 anos, com James Cameron a sair das “sombras” avatarianas com uma lamentação, a repetição da História, de que ninguém quis prestar atenção aos avisos, ninguém quis saber, novamente os ricos armaram-se em indestrutíveis e pagaram o preço. Paz à sua alma, mas não é deles que devemos prestar a nossa atenção. A comunicação social ditou as prioridades, novamente ostentando a importância da classe, dias antes deste destino fatídico, um lotado barco de refugiados naufraga aqui ao lado, no Mediterrâneo, a Guarda Costeira grega cruzou os braços, não interessa, são cerca de 800 vidas (estima-se assim), mas não interessa, só queremos saber de ricos depositados no fundo. Glauber Rocha pronunciou que a Guerra entre as classes é real, aqui notamos essa diferença, e a traição do jornalismo, esse suposto Quarto Poder, que preferiu ficar ao lado daqueles que arriscam em capitalizar a tragédia dos outros (aquelas “ruínas” submersas são um dos ícones das tragédias do século XX, ao lado de Auschwitz), do que viabilizar os «não-privilegiados», os erradicados do seu país, iludidos com as promessas de um Velho Mundo acolhedor e esperançoso, “sepultados” nesse extenso cemitério chamado de Mediterraneo.
Não, não se trata aqui da hipócrita whataboutism com utilização dos refugiados, mas está na altura de aprendemos com isto algumas lições de vida, estabelecer as nossas prioridades (e a comunicação também).
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