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É um cinema que não cabe no sapatinho! Foi com "Os Verdes Anos" de Paulo Rocha que me apaixonei por um cinema, o meu cinema, o nosso cinema. O português, para sermos mais concretos. O cinema que muitos falam encantados, outros repugnados, outros com intenções de dividi-lo, outros com intenções de reúni-los num só universo. Conforme seja a militância, a verdade é que hoje a minha memória recordou (parcialmente) daquelas ruas, ruelas e avenidas, do horizonte lisboeta em construção e em expansão, e de Isabel Ruth, a nossa diva, bela diva, que melhor que ninguém celebra essa aventura. "Os Verdes Anos", atualmente disputando o titulo de filme inaugural do cinema novo português, foi, ao contrário do nome, onde a nossa cinematografia emadureceu.

O Vaticano confirma o maravilhamento operacional que Jornada da Juventude exibiu, os nossos “cabeças-de-cartaz” políticos auto-congratulam-se do feito, os católicos participantes respiram dos ares evangelizadores que esta comunhão ao culto do Papa serviu, mas então e os restantes? Principalmente, os lisboetas, como estes sentirão? A partir de hoje, tudo voltou ao “normal”, o alfacinha ou o trabalhador comum dos mortais deixou de estorvar, saem do seu “teletrabalho” (grande parte deles foi imposto tal regime) e deleitam os transportes “normalizados”, lo trânsito infernal, o silêncio dos nossos governantes nas outras áreas (haverá retorno do evento?) e pelo extremo calor que incentiva o alerta vermelho. O país está na mesma, a saúde na ruína, os profissionais descontentes, a TAP continua um buraco, a desgovernabilidade mantém-se, os órgãos de comunicação voltaram a dar notícias, e a intolerância reverte os seus frutos. Ou seja, tudo normal, habitual aliás, de encolher os ombros, depois de uma semana utópica com benção ali e acolá (e muitos escuteiros), regressamos ao nosso país tal como era antes sem obras do Espírito Santo. Depois disto e com face voltada no Agosto fervente que nos espera, já poderemos voltar a indignar-nos? Se sim, vamos perguntar ao Estado o porquê de gastar 30 milhões num mega-evento religioso se somos, supostamente (sublinha-se), um Estado Laico. Se isto não vos indigna como indignam a mim, exercitamos por uma remota hipótese - o Estado gastou 30 milhões num evento da [inserir religião sem ser a Cristã], reforçou a cidade de transporte e serviços, o restante, que se amanhem.

A indignação é mais que compreensível, o contexto e o momento foram inoportuno para um desmame de 20 milhões de euros (estimadamente) para configurar a cidade de Lisboa para albergar as Jornadas Mundiais da Juventude [evento religioso de grandes dimensões a decorrer em 1 a 6 de agosto], e no centro dessa revolta, um “palco-papa” com um orçamento de 4 milhões para receber o Papa Francisco (o mesmo papa que dispensou um trono de ouro na sua “tomada de posse”). Com inflações, cortes e constantes lutas para melhoramentos no quotidiano dos portugueses, muitos deles à beira da pobreza graças a insustentáveis ajustes económicos, transformem nesta “bandeja milionária” numa ofensa, e não é por menos, visto que vivemos num Estado Laico com claras separações entre Estado e Igreja. Porém, Carlos Moeda garantiu que o mega-evento dará um retorno sem igual à cidade, só que as suas declarações soaram com “pedra num charco”. “Retorno para quem?” Enquanto isso, os professores reúnem-se à porta do Palácio Presidencial em Belém, e sob protesto declaram - “Para os altares há milhões, para nós só há tostões” - é o grau de cansaço que estas situações promovem, o resto, são gastos na pior hora possível.

Prioridades … as rendas insuportáveis em Lisboa, a gentrificação, os alojamentos locais que nascem como “cogumelos”, os nómadas digitais que vem aí “apoderar-se” do espaço com promessas de investimento às cidades, factores que levam os “lisboetas” a sair do centro e afastarem-se, mais e mais, da metrópole. Os subúrbios, esses, tornaram-se superpopulosos. Linha de Sintra, Odivelas, Loures ou Margem Sul, destinos para quem precisa de “pernoitar” perto do seu trabalho - neste caso tratando-se Lisboa como o principal foco - cujo custo de vida seguiu em alta, inflacionado, “pesado” para as carteiras de cada um. Mais e mais vamos afastando, os transportes esses, com ligação direta à capital, são escassos, limitados, e quase intermitentes. A solução? Estender a linha do metro em direção a Campo de Ourique e Santos! Prioridades, como havia dito. Enquanto milhares e milhares, número com tendência a aumentar, levantam cedo, instalam-se em transportes contados e lotados, mais que um, para conseguir chegar à estação de metro. Horas perdidas, suplicando por melhorias, pequenas que bastasse, para o seu dia-a-dia. Porém, é rumo a Alcântara que Lisboa mais ambiciona. Como sempre, a Lisboa dos privilegiados, esses, que não, certamente, os lisboetas.
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